domingo, 4 de outubro de 2009

Aqui jaz este blog.

O que escrevo mudou-se para o seguinte:
http://www.asangadaspatavinas.blogspot.com/

domingo, 13 de setembro de 2009

Fumo cigarros imaginários
Há dias
Trancafio em mim a fumaça colorida
De todas as vidas humanas que não possuo

Agradecimento

A injúria há de se transformar numa verdade
Nas mil faces de cada palavra
E as palavras
Empilhadas umas sobre as outras
Se parecerão com versos
Que no bafo quente
do rufar das asas de uma outra coisa muito mais bonita
ganharão a graça que precisarem
para se tornarem canto
No bico do pássaro que tu não foste
Graças a deus!
Anfíbio, réptil, humaninho

Não há de ser nada
Eu cresço em cima do teu abuso
Arbusto, erva, pólen que sou
Meu uso é retornável
No automático
O cérebro me leva
E o fígado me traz

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Obesidade mórbida

O artista e o louco
vez por outra
são tomados um pelo outro
Justamente
O que não se mantém
cristalizado
graças a uma única e sutil diferença:

O louco é alguém que cresceu
e tenta dar volta
O artista é aquele de quem sempre se vai ouvir falar
que não amadureceu
Afinal
alguém tem que não crescer
nessa estória de mundo

Que mundo
nem mundo
nem nada!
Ninguém desfaz a cara
de quem morreu doendo

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Maldisse a poesia
E ela sumiu
Da ordem dos meus dias

Analfabetizei-me na língua dos sonhos
Voltei a dormir
Quem sabe
Curei uma doença que eu não tinha
Cortejei a arte com o chapéu da loucura
Te vira!
Me deu boa sorte, dura

Deixou minha tristeza crua

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Pôr o dedo na tomada é fazer cosquinha na parede
Quem quiser crescer que se acostume

A boca da noite não ofende
A boca da noite abre e a gente nem vê
Fecha sem deixar nada de fora

O olho da rua não é gordo
Tem vida que é mais vazia que a barriga da miséria
Os anjos têm sexo?
O que é o prazer para quem não sente dor?

Ruga é cicatriz do que não feriu
Alegria gravada
Dor que degenerou

Quem quiser crescer que se acostume

domingo, 23 de agosto de 2009

Não escrevo mais poesia
Se era bem isso o que eu fazia
Perdi a pena de apontar
pequenas aparições do meu próprio espírito

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Os seres mortos e os seres vivos...
Os seres mortos continuam sendo
E a saudade é a razão do status quo dos vivos
A cidade leu a minha mão
E descobriu que ela não tinha linhas
Que o meu destino era traçado a pinceladas curtas

Impressionando ou não
O que for feito de mim
Só se saberá já pronto
Só terá sentido prá quem olhar de longe

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Poesia nada tem a ver com sobreviver
E eu preciso andar
Porque dos caminhos sim
O verso é o que me escapa

domingo, 16 de agosto de 2009

Sobre os bárbaros, os anjos e as lantejoulas

A volta do sarandeio é um giro na Terra
A tua gravidez dói mais que o parto
Guri
Eu te entendi quando enfeitei demais a vida
Tu me conheces bem também
E sabes
como eu
que brilho nunca é demais
ao se tratar de estar vivo
Divides comigo a desconfiança
De que os hunos não conquistaram o mundo
porque eram feios

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

"Ninguém sabe o que diz quando fala dos pobres" (Adélia Prado)

Se esta cidade se olhasse no espelho
O que mais ela veria
Além do seu nome escrito ao contrário?

Alternativa um:
O pó pregando contra a pedra
O branco prazer suado
- eu pago bem sem olhar a quem -
pisando no pé do preto gozo roubado
- a alegria do pobre dura pouco

Alternativa dois:
Os peixes preferindo entrar pela janela do segundo andar

Alternativa politicamente incorreta:
Isso tudo
e mais
umas bocas cheias de cultura
torcendo prá que o frio não passe
crescendo na geometria de uma dor que os seus garrões não sentem

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ciência da solidão

O fogo é um ser vivo.

domingo, 2 de agosto de 2009

A dona do ciúme

As vias pelas quais pariste essas palavras não foram as de fato
Mais comuns de se ver rebentarem

Das frestras do que não se imagina
Nasceu o dono do ciúme
E ele é uma mulher
Quase surda por muito ouvir
Muito cega por tudo ver
Que pinta os olhos à força
Por não conhecer vontade de chorar

A morte dos marinheiros

Treze mil soldados
Todos debaixo d'água
Mortos
Não se sabe de quê
Que tristeza
Vinte mil viúvas incertas
Trocadas pelo mar
Saudade bárbara
Amor eunuco
Se alvejados
Doentes
Ou afogados
Ninguém sabe do que primeiro morrem os soldados navais
Ninguém conhece os ferimentos fatais de uma guerra submarina

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Os anjos um dia também foram domesticados
Um dia na história dos anjos
Eles tiveram que ser adestrados
Era chegada a hora do primeiro contato
Houve então a primeira
A segunda
A terceira peste
Assim, em ordem
Até que eles mesmos
Os anjos
De tão civilizados que ficaram
Resolveram proclamar sua extinção
Não nasceram mais anjos

E as asas dos pássaros então ganharam cores
E perdeu seu ritmo a rotina inalterável dos índios

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Não presta ter paciência
A paciência dança xaxado com a raiva
Todo sábado
Na mesa do almoço
Uma bala rolando na boca do covarde
A paciência
Levai-me!
Quem se dá tem prá o que se deu
O texto antes da língua
A morte do vocabulário
Duas mãos pesadas paradas no ar
à espera de um beija-flor equivocado

Sorte a sua, man do gueto
Sorte a minha fome ser a mesma
O pão dos nossos sonhos
O meu amor tem um coração na mão
E todas as promessas do mundo a se despetalarem

sábado, 18 de julho de 2009

Me disseram que sentisse
e eu dei um tapa na cara do tempo
Quiseram que eu falasse
eu sugeri que caíssem longe de mim os talheres do destino
Não tenho tantas vozes quantas quiser
Mas visualizo minha saga
Entre as que poderiam ter sido
Nenhuma outra me suportaria

terça-feira, 14 de julho de 2009

Faltando coragem, diz prá si mesmo que ninguém tem nada a ver com a vida dele
Que é prá não ter que ver a purpurina das palavras
Quem chora sabe que prá não estar sozinho é preciso ter os ouvidos atentos
a língua bem afiada e pouca vergonha na cara
Porque um peito que se abre não põe seu silêncio à venda
nem distingue as vozes aquelas em que se decompõe

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Da matéria das lágrimas são as pedras nas tuas costas
Podem tirar o gosto do teu pão
e o brilho da tua água
Mas quem conseguirá chorar por ti?
Pegou o primeiro vento que passou
e não voltou
Pelotas pensa que eu não sei
Jura

Coitada
Pelotas acha que vapor é que nem fumaça
Pobre bicho
Só acha

Onomatopéias rebuscadas
Conjugarão os verbos da ausência
Quando a linguagem se fizer de louca
Vou descer do posto de vigia
e voltar a ver poesia
nos ombros de um janeiro à frente

Mentira, né
Pelotas finge que não sabe
que é prás coisas fingirem que não existem
e quem quiser, fazer de conta que não sofre

A cidade tem suas costas largas
Perdão, cidade
És uma amiga minha
de quem eu falo o impossível de mim
Desabotoando acasos na purpurina da palavra

Grito de cigarra estalando ao meio-dia
O acaso deixa de existir quando acontece


quinta-feira, 9 de julho de 2009

As letras das músicas moram neste blog




terça-feira, 30 de junho de 2009

Ninguém reclama do sol
debaixo de um trópico cinza
Ninguém dá bola pro chão
quando não voa

Trago uma dor que é coletiva
E a alegria de quem não tem nada a perder
Agô!

Salvador pede a mão de Dalí em casamento

Os bichos vão cantar para ti
Os bichos todos vão cantar
Vão cantar
Vão cantar os bichos
Vão cantar para ti
Amor da sujeira das minhas unhas
Paixão da remela do meu olho
Coisa mais linda do mundo do suor do meu sovaco
Na alegria e na tristeza

A cárie do meu dente deu prá afta da tua língua
Que tesão!
Os piolhos vão gozar
Os piolhos todos
Todos os piolhos vão gozar
Só de te ver passar
Na saúde e na doença

O pus da minha espinha tem o pau duro
Lateja o catarro em meu pulmão
Tara pérfida dos meus vermes encantados
Nem que a morte nos separe
Em nome do fel, da bílis e do couro encardido
Ai, vem!
Eu não te amo mais
do que enlouqueço

terça-feira, 23 de junho de 2009

O preconceito é um espinho que nasce para dentro (Da série "Títulos que já dizem tudo")

Desenhou a própria mão em círculos que levavam até não muito longe de onde cristalizaram, na chuva passada, os caracóis que hoje disputam o cargo de seus calçados pelas ruas que há tempos não lhe vêem. Segue. Os traços de grafite viram pó logo ao encontrar a forma de um grito que se soltou quando dormia, na agonia fértil e muda de quem não costuma descansar feridas. O deus cego aquele que se apresentou já meio tarde mas sujo de sangue novo, e com quem costumava conversar antes das batalhas, desta vez se antecipou e disse: "Vai. Vai sim. Mas escuta só esse samba. Ouviste? Então deixa que doa como ele dói. Na carne de quem te flagela"
Quando acesso os subterfúgios de meu encontro com o mar
enxergo:
Vivo numa cidade cercada de água por todos os lados
A água teve a petulância de invadir o ar
E não se conhece quem se tenha enchido dela

Vivo numa das cidades pobres mais ricas de si mesmas
Uma cidade rica que apodrece em seus mausoléus mofados ao público
Quem diria alguém dizer viver num lugar assim

Pois é, mas quando a água vidra os olhos
sei que é chuva que ela quer
e eu chovo
Falta água nas placentas de todas as coisas
Fábrica dos partos
útero dos sentidos de tudo

Levo às suas olheiras o que me enche
em riso ou em tormenta
e me esvazio
Faço quase nada
olhando o céu ver-se no espelho engravidar


sexta-feira, 19 de junho de 2009

Aluado

Silêncio
Me abraça, silêncio
que sonhando eu não escuto nada
Parte das coisas tem sombra
o resto voa sem querer

Vem, silêncio
fingir que diz verdades no ouvido da minha tristeza
que é tão doce
e tanto sabe de si mesma
Eu te chamo inteiro
absoluto e irreal,
silêncio
para que qualquer voz que te corrompa a me chamar
eu possa ignorar
E o tempo todo seja meu e teu
Assim, ilusoriamente
do tamanho exato das noites que me permites

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Rói a corda
moça
Joga-te
O mundo é um carrossel
à espera do teu tombo

Onde repousa a mão da tua paciência
amordaças o desejo
de te tornares a irmã única da solidão

terça-feira, 16 de junho de 2009

Tão triste a ponto de se achar feliz demais
Gonçalo, onde começas?
Nem nasceste
Alguém te pôs aí
e tu ficaste
carregando o céu nas costas

Estivador das estrelas e das nuvens
Puxas Oxuns pelas mãos
e por onde elas passam os portos permanecem
povoados de saudade e pássaros
Onde terminas, Gonçalo?

Filho da terra emprestado ao mar
Talvez daí tua santidade
ou o porquê de para ti não se desfiar nem um rosário
quando do teu corpo só mesmo os braços de operário
bem conhecem as procissões e os calvários