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Aqui jaz este blog.
O que escrevo mudou-se para o seguinte:
http://www.asangadaspatavinas.blogspot.com/
Fumo cigarros imagináriosHá diasTrancafio em mim a fumaça colorida De todas as vidas humanas que não possuo
A injúria há de se transformar numa verdade
Nas mil faces de cada palavra
E as palavras
Empilhadas umas sobre as outras
Se parecerão com versos
Que no bafo quente
do rufar das asas de uma outra coisa muito mais bonita
ganharão a graça que precisarem
para se tornarem canto
No bico do pássaro que tu não foste
Graças a deus!
Anfíbio, réptil, humaninho
Não há de ser nada
Eu cresço em cima do teu abuso
Arbusto, erva, pólen que sou
Meu uso é retornável
No automático
O cérebro me leva
E o fígado me traz
O artista e o loucovez por outra são tomados um pelo outroJustamenteO que não se mantém cristalizadograças a uma única e sutil diferença:O louco é alguém que cresceue tenta dar voltaO artista é aquele de quem sempre se vai ouvir falarque não amadureceuAfinalalguém tem que não crescernessa estória de mundoQue mundo nem mundonem nada!Ninguém desfaz a carade quem morreu doendo
Maldisse a poesiaE ela sumiuDa ordem dos meus diasAnalfabetizei-me na língua dos sonhosVoltei a dormirQuem sabeCurei uma doença que eu não tinhaCortejei a arte com o chapéu da loucuraTe vira!
Me deu boa sorte, duraDeixou minha tristeza crua
Pôr o dedo na tomada é fazer cosquinha na paredeQuem quiser crescer que se acostumeA boca da noite não ofendeA boca da noite abre e a gente nem vêFecha sem deixar nada de fora
O olho da rua não é gordoTem vida que é mais vazia que a barriga da misériaOs anjos têm sexo?O que é o prazer para quem não sente dor?Ruga é cicatriz do que não feriu
Alegria gravada
Dor que degenerouQuem quiser crescer que se acostume
Não escrevo mais poesia
Se era bem isso o que eu fazia
Perdi a pena de apontar
pequenas aparições do meu próprio espírito
Os seres mortos e os seres vivos...Os seres mortos continuam sendoE a saudade é a razão do status quo dos vivos
A cidade leu a minha mãoE descobriu que ela não tinha linhasQue o meu destino era traçado a pinceladas curtasImpressionando ou nãoO que for feito de mimSó se saberá já prontoSó terá sentido prá quem olhar de longe
Poesia nada tem a ver com sobreviverE eu preciso andarPorque dos caminhos simO verso é o que me escapa
A volta do sarandeio é um giro na TerraA tua gravidez dói mais que o partoGuriEu te entendi quando enfeitei demais a vidaTu me conheces bem tambémE sabes como euque brilho nunca é demais ao se tratar de estar vivoDivides comigo a desconfiançaDe que os hunos não conquistaram o mundoporque eram feios
Se esta cidade se olhasse no espelhoO que mais ela veriaAlém do seu nome escrito ao contrário?Alternativa um:O pó pregando contra a pedraO branco prazer suado - eu pago bem sem olhar a quem -pisando no pé do preto gozo roubado- a alegria do pobre dura poucoAlternativa dois: Os peixes preferindo entrar pela janela do segundo andarAlternativa politicamente incorreta:Isso tudoe mais umas bocas cheias de cultura torcendo prá que o frio não passecrescendo na geometria de uma dor que os seus garrões não sentem
As vias pelas quais pariste essas palavras não foram as de fatoMais comuns de se ver rebentaremDas frestras do que não se imaginaNasceu o dono do ciúmeE ele é uma mulherQuase surda por muito ouvirMuito cega por tudo verQue pinta os olhos à forçaPor não conhecer vontade de chorar
Treze mil soldadosTodos debaixo d'águaMortosNão se sabe de quêQue tristezaVinte mil viúvas incertasTrocadas pelo marSaudade bárbaraAmor eunucoSe alvejadosDoentesOu afogadosNinguém sabe do que primeiro morrem os soldados navaisNinguém conhece os ferimentos fatais de uma guerra submarina
Os anjos um dia também foram domesticadosUm dia na história dos anjosEles tiveram que ser adestradosEra chegada a hora do primeiro contatoHouve então a primeiraA segundaA terceira pesteAssim, em ordemAté que eles mesmosOs anjosDe tão civilizados que ficaramResolveram proclamar sua extinçãoNão nasceram mais anjosE as asas dos pássaros então ganharam coresE perdeu seu ritmo a rotina inalterável dos índios
Não presta ter paciênciaA paciência dança xaxado com a raivaTodo sábadoNa mesa do almoçoUma bala rolando na boca do covardeA paciênciaLevai-me!
Quem se dá tem prá o que se deuO texto antes da línguaA morte do vocabulárioDuas mãos pesadas paradas no arà espera de um beija-flor equivocadoSorte a sua, man do guetoSorte a minha fome ser a mesmaO pão dos nossos sonhosO meu amor tem um coração na mãoE todas as promessas do mundo a se despetalarem
Me disseram que sentissee eu dei um tapa na cara do tempoQuiseram que eu falasseeu sugeri que caíssem longe de mim os talheres do destinoNão tenho tantas vozes quantas quiserMas visualizo minha sagaEntre as que poderiam ter sidoNenhuma outra me suportaria
Faltando coragem, diz prá si mesmo que ninguém tem nada a ver com a vida deleQue é prá não ter que ver a purpurina das palavrasQuem chora sabe que prá não estar sozinho é preciso ter os ouvidos atentosa língua bem afiada e pouca vergonha na caraPorque um peito que se abre não põe seu silêncio à vendanem distingue as vozes aquelas em que se decompõe
Da matéria das lágrimas são as pedras nas tuas costasPodem tirar o gosto do teu pãoe o brilho da tua águaMas quem conseguirá chorar por ti?
Pegou o primeiro vento que passou
e não voltou
Pelotas pensa que eu não sei
Jura
Coitada
Pelotas acha que vapor é que nem fumaça
Pobre bicho
Só acha
Onomatopéias rebuscadas
Conjugarão os verbos da ausência
Quando a linguagem se fizer de louca
Vou descer do posto de vigia
e voltar a ver poesia
nos ombros de um janeiro à frente
Mentira, né
Pelotas finge que não sabe
que é prás coisas fingirem que não existem
e quem quiser, fazer de conta que não sofre
A cidade tem suas costas largas
Perdão, cidade
És uma amiga minha
de quem eu falo o impossível de mim
Desabotoando acasos na purpurina da palavra
Grito de cigarra estalando ao meio-dia
O acaso deixa de existir quando acontece
Ninguém reclama do soldebaixo de um trópico cinzaNinguém dá bola pro chão quando não voaTrago uma dor que é coletivaE a alegria de quem não tem nada a perderAgô!
Os bichos vão cantar para tiOs bichos todos vão cantarVão cantarVão cantar os bichosVão cantar para tiAmor da sujeira das minhas unhasPaixão da remela do meu olhoCoisa mais linda do mundo do suor do meu sovacoNa alegria e na tristezaA cárie do meu dente deu prá afta da tua línguaQue tesão!Os piolhos vão gozarOs piolhos todosTodos os piolhos vão gozarSó de te ver passarNa saúde e na doençaO pus da minha espinha tem o pau duroLateja o catarro em meu pulmãoTara pérfida dos meus vermes encantadosNem que a morte nos separeEm nome do fel, da bílis e do couro encardidoAi, vem!Eu não te amo maisdo que enlouqueço
Desenhou a própria mão em círculos que levavam até não muito longe de onde cristalizaram, na chuva passada, os caracóis que hoje disputam o cargo de seus calçados pelas ruas que há tempos não lhe vêem. Segue. Os traços de grafite viram pó logo ao encontrar a forma de um grito que se soltou quando dormia, na agonia fértil e muda de quem não costuma descansar feridas. O deus cego aquele que se apresentou já meio tarde mas sujo de sangue novo, e com quem costumava conversar antes das batalhas, desta vez se antecipou e disse: "Vai. Vai sim. Mas escuta só esse samba. Ouviste? Então deixa que doa como ele dói. Na carne de quem te flagela"
Quando acesso os subterfúgios de meu encontro com o marenxergo:Vivo numa cidade cercada de água por todos os ladosA água teve a petulância de invadir o arE não se conhece quem se tenha enchido delaVivo numa das cidades pobres mais ricas de si mesmasUma cidade rica que apodrece em seus mausoléus mofados ao públicoQuem diria alguém dizer viver num lugar assimPois é, mas quando a água vidra os olhossei que é chuva que ela quere eu chovoFalta água nas placentas de todas as coisasFábrica dos partosútero dos sentidos de tudoLevo às suas olheiras o que me encheem riso ou em tormentae me esvazioFaço quase nadaolhando o céu ver-se no espelho engravidar
SilêncioMe abraça, silêncioque sonhando eu não escuto nadaParte das coisas tem sombrao resto voa sem quererVem, silênciofingir que diz verdades no ouvido da minha tristezaque é tão docee tanto sabe de si mesmaEu te chamo inteiroabsoluto e irreal,silênciopara que qualquer voz que te corrompa a me chamareu possa ignorarE o tempo todo seja meu e teuAssim, ilusoriamentedo tamanho exato das noites que me permites
Rói a cordamoçaJoga-teO mundo é um carrosselà espera do teu tomboOnde repousa a mão da tua paciênciaamordaças o desejode te tornares a irmã única da solidão
Tão triste a ponto de se achar feliz demaisGonçalo, onde começas?Nem nascesteAlguém te pôs aí e tu ficastecarregando o céu nas costasEstivador das estrelas e das nuvensPuxas Oxuns pelas mãose por onde elas passam os portos permanecempovoados de saudade e pássarosOnde terminas, Gonçalo?Filho da terra emprestado ao marTalvez daí tua santidadeou o porquê de para ti não se desfiar nem um rosárioquando do teu corpo só mesmo os braços de operáriobem conhecem as procissões e os calvários