quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

" Vive-se de braços abertos, pois de fechados nos bastam os ventos que sopram ao peito..." (Miriam Lane)
Meu par de ouvidos
esqueceu de ouvir
para olvidar
Tudo porque
a voz que escutavam
estacionou
léguas atrás
dizendo obviedades
improváveis
que se guardadas
no vão dos fatos
registráveis
congestionariam o trânsito
da paciência

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Carta de amor

Amo o silêncio com a mesma e suave força com que me seduz uma canção bonita. Não porque a segunda me seja indiferente, mas por serem ambos exatamente a mesma coisa: sangue, espaço, sangue, sangue, vazio, sangue, espaço, passo, sangue, marca-passo, marca o passo, sangue, marca o compasso, sangue, sangue, sangue, espaço, o silêncio é o intervalo e é o todo, a canção que invade é a mesma que transborda.
Para quê então se escreve, se a palavra é pura alegoria? Eu escrevo porque amo o silêncio, cada palavra escrita é uma declaração, não escrevo mais do que cartas de amor ao silêncio.
Ser invisível não me torna transparente
ao contrário
reafirma a opacidade do que sou
entre todas as coisas

Meu rompimento com o real
começa logo ao lado
do que não atinjo
com a longa cauda dos pensamentos
a tatear o solo bárbaro
da alegria rude
diante das vezes em que me ultrapasso

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Empirismos

Tem dor

que eu te digo
amigo
tem dor
que só doendo
amigo
só doendo

Tem dor que só doendo
passa
Tudo que é vivo gasta.
À noite não se pensa
pensou ela
de dentro do olho fechado
O escuro toma a forma das coisas
e a sua se percebia
somente
porque trazia
o braço dado à ausência

domingo, 21 de dezembro de 2008

Abracadabra
as mãos da imensidão
Abracadabra
a solidão dos versos
engaiolados
Abracadabra
o samba daqui ainda não morreu

Nosso samba mora nas ancas de uma véspera
que não se quer cadência
e não faz rima com tristeza
O samba que se desequilibra
por essas bandas
não é maldição prá bamba

Nosso samba só sabe o que não pode ser
Ninguém ouve
Ninguém vê
o samba batucar
no peito
preso

Ninguém ouve
Ninguém vê
o samba escuro
preto
pobre
girar o mundo
de todo mundo
seja em fevereiro
ou no subúrbio

Ninguém ouve
Ninguém vê
mas ninguém deixa morrer

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Não tinha reparado que as nuvens se movem
como que de mãos dadas.
Só é possível apreciar movimento tão lindo
quando passo algum tempo comigo.
Tenho em mim um céu azul que anda.


Que doce perturbar,
a ventania nos pés não cessa de trazer o que foi
e o que não é ainda.
Estranho esse novo deleite de me alcançar...


(Ana Delias de Sousa)

Velas

Solto as minhas velas
diante do teu olhar de cores
enfeito-me delas
e afeita às minhas saias
te entrego parte
da dança dos dias
Aqui, mar adentro,
é tudo tão fundo
tão verde e tão cobre
que eu perderia o norte
não fosse o branco
das tuas embarcações


(Daniela Delias)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Criatura

Existe um deus que não existe
e outro deus
que só insiste
em não morrer de amores

Existe um deus que não existe
mais um milhão
que ainda resiste
preso fora das molduras

Existe um deus que não existe
e outro ateu
que se assiste
nascer um pedaço
a cada obra

Existe um deus que não existe
e é o mesmo aquele
que não desiste
de ser pai
prá virar cria

Existe um deus que não existe
ou se abandona
pede esmolas no sinal aberto
de viver

entre eternos
recomeços

Existe um deus que não existe
mas dizer isso
prá um artista
já consiste
em crer
que não existe

deus que não exista
Atrás dessa vida
escondida
tem outra bem mais viva
escondida
de si mesma
se disfarça
entre os talheres
sobre a mesa
chega até a boca
mas não passa
não passa
de vapor
Procura-se um coração
que já não tenha peito
Preocupa-me uma emoção
que não se sonhe gesto

Alarde é moeda
de lavar verdades

Intolero-te o fino trato
dado às calçadas
de lavrar as almas

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Com sucesso
e sem querer
minha voz deu por mim
na dobra de uma página
virada
sobre a própria dor

Apesar da língua má
os olhos da minha voz
não mentem

Bem-vinda
voz
ao centro
dos meus meios
Desabotoe
se puder
as presilhas do meu ser
embalsamado
Triste olhar de mestre sala à bancarrota da transpiração dos sonhos cansados de não se acabar.

Os filhos da Lua

Cada palavra que sai é um ar que entra
Entre o passo longo e um seio novo
nada cabe muito no que se diz

A mulher supercompleta não tem portas
Carece da célebre inveja inventada 
Seu corpo sobra entre tantas faltas

A mulher inteira desliza
Pura
No chão ausente de uma perfeição em sete cores.

domingo, 14 de dezembro de 2008

O poema de pernas abertas

Salve a bruxaria!
Salve o pudor
e a putaria!

Salve-se quem puder
pois quem não se der
pelo menos uma chance
corre risco
de perder
de olhar a vida
aquela exibida
desvestir cortinas
em topless
Se é a falta
que teu samba chora
encaixa o queixo
onde for porto
e te demora
demora
que eu já não te sou
de agora
Meu perto é nunca
meu logo
longe
Seremos um
do outro
enquanto
nada formos
de nós dois

sábado, 13 de dezembro de 2008

A arte é uma ingrata
Somos sopro
e ferreiro
forjando nadas
na boca estreita
de um vulcão
que nasce
e morre
sem dizer palavra
sem deixar herança
No carnaval da minha rua
só vai dar perplexidade
quem quiser andar nua
tem que saber
que o céu é dos anjos
por usucapião
e que as mariposas
são tendências
hermafroditas
de estrelas invadidas
de ópio
e serpentinas
mortas-vivas

Terrenas

Como fico com esta cara?
E esta? Lhes agrada?
Não. Esta aqui não
Doem-me as bochechas
E esta agora?
Pouco receptiva?
É a mais usada...
mas Ok
vejamos...
A última é esta
Pode ser?
Sim?
Será esta a minha cara então
A cara satisfeita
de quem dança
para que os olhos
parados
não perturbem a ordem
das coisas
em movimento
obrigatório
É preciso não ser tão triste. Os alquimistas não inventaram o ouro, mas a solidão do chumbo.

É melhor não ver, Júlio René

Na mansidão das orlas
dos olhares tristes
as ondas vêm quebrar para dentro
a rebentação quer saber do fundo
e não da praia

Mesmo que as marés se movam
com a lua
seu desejo de não contemplar
deseja a morte
das galáxias
Sua maior alegria
seria não haver mais poesia
nas calçadas
nem samba para curar
solidão

Operário de pai e mãe
e espírito santo
mergulhou de vez
no mês anterior
àquele que lhe cede
o nome
Andava a se envolver
com qualquer coisa
de não caber
no coração

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Parto de sol a sol
há tempo
do teu meio-tom desafinar
que é mais ou menos
pela hora
de uma nova tarde entristecer

Parto de sol a sol
mas sem cortar
caminho
porque
não há atalho que me valha
o fogo lento a estrear
a eterna trilha
rumo à cordilheira dos teus ombros

Favoráveis

Meu olhar de contrabando
contrariando o jeito honesto
deu jeito de te atravessar
a contragosto dos vigias
distraídos nos contratempos
da indiferença
pela aduana contraposta
de sol e restos derretidos
da via dos nossos destinos
em contrapartida

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

As sombras tropicais
sobrevivem à hora mais triste do dia
Mas só as sombras tropicais
De resto
todo mundo morre um pedaço
entre uma e duas da tarde

À parte a vantajosa desmatéria
Há um esconderijo secreto
debaixo dos pés do mundo
onde cada sombra
guarda seu rosto
e o extinto gozo
de poder ser contraditória
Não são de brincar
as novidades que eu te trouxe
Nem tão novas são
que se possa esperar
que eu ouse
romper-te as asas
postas de lado
por necessidade

Espera
nesta estação
que é aqui que passa o mundo
todo dia
na contra-mão dos sonhos
de mãos dadas com teus planos
gravados nas paredes comestíveis
que eu trago
prá me proteger
do teu sofrer

Dezembro

Não sei se o ar que respiras
é o mesmo que falta em meu peito
ou se há treze marços de ti
o ar às vezes fica mais denso
Tampouco entendo esse frio lá fora
e se é dele esse destempero
ou se a minha solidão somou-se a tua
inaugurando um inverno em dezembro

(Daniela Delias)

sábado, 6 de dezembro de 2008

Têm um quê de abandono
as tatuagens no teu pescoço
menino
Há um tom de nunca mais
nas tuas palavras de se ver
meu amigo
Mas olha, segue o barco
segue o que te diz
quem já cegou
o fio das garras
a separar qualquer coisa
de valer a pena
entre tantas solidões
passageiras

O guri que inventou o sono foi o mesmo que roubou das horas o sentido de não passarem.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Nem vem
que não tem
saudade
Nem vem
que eu já fui
prá lá de mim
tristeza
Caminha
daqui
dona carência
tudo pode
Vá se foder

de uma vez
feiura
Que se dane!
Minha cara
não se engane
o único prazer
real
é o mais raro
é o silêncio
Devo comer do sangue
que espero ver aguado?
Por vezes infinitas
é o cerne da questão
se me vou
ou deixo
o gume dos dias
romper
a fúria das bocas secas
a meu favor
a favor do meu peito
fraco
em direção a minha pele
pronta
quase avessa

Quase tudo
eu sou
quando a vida me toma
o lugar
e o senso
que de bom
só tem mesmo
os dias contados
para se esvaziar

Vou pedir
para ser nuvem
da próxima vez
que o acaso cruzar por aqui
quem sabe de mim
brilhe algo mais
convincente
que o sorriso besta

dessa maravilha triste
que é existir
além do que se pode

Liberty Sambaway II

Ô nêgo
não se apegue tanto
ao meu desprezo
Preto
É puro zelo
não querê-lo
todo
assim de imediato

Faço caso
finjo que nem vejo
o teu apelo
E mesmo só
eu vou curtindo esse castigo
sem lamento ou despeito
Isso é tudo
apreço meu
Preto

Corto um dobrado
prá fugir do teu alcance
mas é que eu sei
que não há paixão que não se canse
nem amor que não se gaste
Por isso
pegue
Preto
pegue
o seu desejo
e me espere